O mercado livre de energia no Brasil: Transformações e oportunidades profissionais

Crescimento do mercado livre gerou uma demanda significativa por profissionais que possuem conhecimento mínimo do setor energético.  Tempo de leitura: 6 minutos.

O setor de energia elétrica no Brasil vem passando por uma transformação significativa nos últimos anos, com o crescimento acelerado do mercado livre de energia. Este novo modelo de comercialização tem criado uma demanda crescente por profissionais especializados, gerando oportunidades e desafios para quem deseja ingressar ou se reposicionar neste segmento.

Segundo a gerente sênior da Michael Page, Bruna Pescuma, o mercado livre de energia no Brasil tem apresentado um crescimento expressivo nos últimos cinco anos, com destaque para os dois últimos anos. “Este crescimento gerou uma demanda significativa por profissionais que possuem conhecimento mínimo do setor energético, ocupam posições de nível especialista e acima, atuam em funções de gestão comercial (como gerentes de comercialização de energia), trabalham em áreas de suporte (back office, middle office) e operam na geração diária de energia”, ressaltou.

Entretanto, de acordo com a gerente, a busca por talentos tem sido intensa, especialmente por aqueles que combinam expertise técnica com habilidades relacionais, capazes de navegar em um ambiente altamente regulado e em constante transformação, preparando-se para a abertura completa do mercado prevista para 2027.

Perfil profissional requisitado

O mercado de energia livre exige um perfil profissional bastante específico, caracterizado principalmente por formação técnica, com predominância de engenheiros elétricos, enquanto posições relacionadas ao regulatório frequentemente demandam formação jurídica.

Contudo, Bruna enfatiza que mesmo em funções menos técnicas, o conhecimento especializado é fundamental. “Mesmo posições que estão um pouco mais distantes do técnico mesmo, da operação, é necessário que esses profissionais conheçam tecnicamente.”

Segundo a executiva da Michael Page, o profissional ideal combina expertise técnica com habilidades interpessoais desenvolvidas, demonstrando capacidade de relacionamento com diferentes níveis hierárquicos dentro dos clientes e resiliência para enfrentar as oscilações características deste mercado em transformação. “Esta combinação de competências técnicas e comportamentais torna-se essencial para navegar com sucesso em um setor altamente regulado e em constante evolução”, explicou.

Transições de carreira bem-sucedidas

De acordo com Bruna, as transições de carreira mais bem-sucedidas para o mercado livre de energia têm sido protagonizadas por profissionais oriundos de setores que experimentaram processos semelhantes de abertura e privatização. “O setor de telecomunicações destaca-se como a principal fonte de talentos adaptáveis. O setor de telecom, por exemplo, foi um setor, e ainda é, quando a gente vai fazer busca de executivos que combina muito com o mercado de energia livre”, disse ao CanalEnergia.

Segundo ela, esta compatibilidade deve-se às similaridades na trajetória de transformação, passando de um modelo predominantemente público para privado, e pela evolução para um modelo de varejo. “Além das telecomunicações, profissionais dos setores de meios de pagamento e gás também têm demonstrado boa adaptabilidade ao ambiente do mercado livre de energia. Eles trazem experiências valiosas de contextos regulatórios e comerciais que passaram por mudanças estruturais comparáveis”, ressaltou.

Um exemplo da jornada de transição

Um exemplo é Henrique Freitas, head de processos e inovação operacional da Tradener, que fez uma mudança significativa de carreira em 2018, transitando de 15 anos em cartografia e gestão de cadastro imobiliário. Enquanto inicialmente focava no desenvolvimento de aplicações de TI, recebeu um convite de Guilherme Ávila para liderar o departamento de TI da Tradener, que necessitava de uma transformação em seus sistemas internos.

Sua experiência anterior desenvolvendo sistemas específicos para gestão de cadastro imobiliário, que envolvia lidar com grandes volumes de dados e regras complexas, proporcionou-lhe uma excelente visão sistêmica, sua habilidade transferível mais valiosa no mercado de energia.

O maior desafio que Freitas enfrentou ao se adaptar ao setor de energia foi entender a complexidade das regulamentações do setor. Levou aproximadamente dois anos para obter uma compreensão sólida das regras do setor, embora continue aprendendo novos aspectos regularmente.

“Na minha experiência anterior, por ter trabalhado em uma empresa familiar, desenvolvi um senso de dono apurado, e uma visão crítica quanto à otimização dos processos. Na Tradener pude colocar em prática essa experiência na atualização dos sistemas internos”, explicou ao CanalEnergia.

Diferenças culturais

Freitas observou diferenças culturais significativas entre seu ambiente de trabalho anterior e o setor de energia. “Foram cerca de dois anos até entender melhor as regras do setor, mas continuo sempre aprendendo algo novo”, disse.

Seu papel anterior envolvia fornecer serviços principalmente para entidades públicas como prefeituras. Enquanto na Tradener, eles atendem empresas de vários portes em um ambiente muito mais dinâmico que se adapta constantemente às necessidades do mercado.

Para profissionais que consideram uma transição para o setor de energia, ele recomenda estudo extensivo. “Tem muito material online sobre o setor, como ele está distribuído, as principais organizações e regulamentações”, ressaltou. E, antes de ingressar na Tradener, o executivo desconhecia completamente o mercado livre de energia. Hoje, ele reconhece a importância do mercado para o desenvolvimento do país.

Transformações

Em entrevista ao CanalEnergia, o superintendente de Pesquisa da FGV Energia, Felipe Gonçalves, revelou as profundas transformações que estão remodelando o setor de comercialização. “Com o crescimento do mercado livre, o foco da comercialização está cada vez mais no varejo”, disse. Segundo ele, além das capacidades técnicas historicamente centradas nas regras da CCEE e na precificação e gestão de risco de mercado, as comercializadoras passam a buscar competências relacionadas à inovação regulatória e tecnológica.

“Conceitos de Energy-as-a-Service (EaaS), Sandbox regulatório, BESS e Open Energy precisam estar na visão do novo profissional desse mercado. E a fluência em ciência de dados continua sendo diferencial, mas agora com foco na prospecção de novos mercados e integração de serviços”, ressaltou.

Do lado comportamental, ele disse que pesam as capacidades de comunicação e negociação. Além disso, ele destacou que o avanço da inteligência artificial elevou significativamente as expectativas sobre os profissionais do setor. “O tempo que antes levava a uma planilha complexa, hoje se espera que leve a um dashboard interativo e integrado a bases de dados”, explicou.

A transição energética em curso demanda uma visão mais holística dos sistemas energéticos. Gonçalves ainda destacou que o profissional não pode estar centrado em um único segmento ou conjunto de tecnologias. É necessário compreender desde grandes complexos eólicos até pequenas plantas de geração distribuída.

Para os próximos cinco anos, o superintendente da FGV Energia aponta que o maior desafio será combinar capacidades tecnológicas com a visão regulatória. “O profissional que prosperará será aquele capaz de fazer a ponte entre regulação, tecnologia e mercado, convertendo insights de IA e ciência de dados em produtos energéticos escaláveis”, disse.

Por fim, Gonçalves ressalta ainda a crescente valorização de profissionais que conseguem integrar sustentabilidade ao modelo de negócio, conciliando rentabilidade com impacto socioambiental positivo para uma transição energética justa e financeiramente sustentável.

FONTE: CANALENERGIA