Eventos cada vez mais extremos acendem alerta para necessidade de melhorias, adaptações ou alterações nas estruturas de geração de energia. Tempo de leitura: 4 minutos.
Não bastasse o problema do curtailment, os geradores solares e eólicos também precisam se preocupar com o contexto das mudanças do clima. De acordo com novo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o grande desafio será equilibrar os riscos climáticos com os investimentos necessários para as soluções que garantam a continuidade das produções sem comprometer a modicidade tarifária.
Apesar de ser a segunda fonte em capacidade instalada no Brasil em 2024 (20% ou 48 GW), a solar ocupou o terceiro lugar em termos de geração. Conforme consta na publicação, foram 70 mil GWh, com uma representatividade de 9,3%. O fator de capacidade da fonte é tido como baixo, de 24%, levando em consideração 2018 ao ano passado. Isso devido à grande variabilidade intradiária e à geração nula no período noturno. Já ao longo dos meses ou anos a geração média tende a ser estável.
Somado a isso, os eventos climáticos cada vez mais extremos podem impactar a produção e a estrutura dos equipamentos. Assim, demandam melhorias, adaptações ou alterações para adequá-los a situações mais severas. Entre os principais fatores estão o aumento dos índices de nebulosidade, temperatura, duração das secas, assim como ventos e chuvas extremas. Na figura abaixo, a EPE compilou as principais ocorrências nos últimos anos.
Projeções do IPCC
A publicação da EPE também traz projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e do Plano Clima. As quais mostram tendências de aumento dos ventos na superfície e da irradiação solar em parte do território nacional (Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste). Representando, assim, oportunidades associadas ao aumento da geração. Por outro lado, a perspectiva aponta tendências que representam riscos para a fonte. Como o aumento nas condições favoráveis ao clima de incêndio nas mesmas regiões citadas acima.
Dessa forma, a disposição dos sistemas de geração em grandes áreas descampadas (para evitar sombreamento) pode deixá-los mais expostos à ocorrência de descargas atmosféricas, ventos fortes, chuvas de granizo e inundações. Além disso, os equipamentos elétricos são dimensionados para determinadas faixas de temperatura. Ultrapassados esses limites, pode haver redução da eficiência de geração.
Eólica
Em outro caderno, a EPE aborda especificamente a fonte eólica, que figurou na segunda posição da matriz geradora em 2024. Foram 107 mil GWh, com 14% de representatividade. Do montante que pode ser ofertado, cerca de 90% das instalações estão localizadas no Nordeste. Enquanto o Sul conta com 9%. Já entre os principais riscos climáticos para os aerogeradores está a alteração nos padrões de ventos, além do aumento da temperatura, secas e magnitude de chuvas.
Conforme as projeções do IPCC, haverá uma evolução na velocidade média de ventos na superfície em todo o Brasil. Além disso, no âmbito do Plano Clima, a Estratégia Nacional de Adaptação apresenta a tendência de avanço dos ventos severos no Nordeste, Norte, Sul e Sudeste. Sendo assim, o contexto exige aportes em adaptação das estruturas e em novas tecnologias. Além disso, pode haver a necessidade de manutenções mais frequentes que representam custos adicionais. Mesma análise servindo para a fonte fotovoltaica.
Entre os principais casos do setor, o estudo ressalta a queda de oito torres durante um temporal em 2014 no Rio Grande do Sul. Seis anos depois fenômenos climáticos impactaram a produção das turbinas no Nordeste. Fazendo a geração medida registrar metade da média histórica para o período. Ademais, os alagamentos históricos no RS no ano passado impossibilitaram o acesso e manutenção de torres anemométricas.
Medidas
Os estudos da EPE finalizam propondo medidas que possam apoiar as chamadas renováveis complementares. Entre elas promover regulamentação que incentive medidas de adaptação, aprimorando a questão de atributos e requisitos do sistema. E implementando sistemas de certificação com especificações técnicas e padrões de qualidade para micro e minigeração distribuída, além de aprimorar mecanismos de controle das turbinas para rápida resposta a mudanças de vento.
Além disso, a lista de proposições inclui fortalecer infraestruturas, ampliar comunicação, melhorar modelos climáticos e representação das fontes, fomentar pesquisa e inovação buscando arranjos flexíveis para aumentar a resiliência dos projetos às condições climáticas futuras (armazenamento, smartgrids, integração com outras renováveis).
As publicações fazem parte da segunda etapa do Roadmap para Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico em resposta às Mudanças Climáticas. É uma ação de curto prazo do Plano de Recuperação dos Reservatórios de Regularização de Usinas Hidrelétricas (PRR). A primeira etapa resultou na publicação de uma Nota Técnica e de um caderno-síntese que apresentam uma revisão bibliográfica sobre o tema.
FONTE: CANALENERGIA
